quinta-feira, 8 de outubro de 2015

TEXTO 12

VAMOS DESCOBRIR A AMÉRICA?
De maneira canalha, a Escola que os europeus nos trouxeram sempre ensinou que no 12 de outubro eles, brancos e cristãos, descobriram a América. As aventuras e desventuras de Cristóvão Colombo deviam ser decoradas pelos bons alunos. Começou a partir de então o longo período de saques, massacres, obras tão cristãs de Pizarro e seus sequazes, o que perdurou até princípios do século XIX, quando chegaram a independência e a fragmentação política da América Latina.
Consequência inevitável da Revolução Industrial, a Inglaterra assumiu-se no direito de uso e exploração da América, no exercício de todas as formas clássicas de imperialismo colonialista. Esse foi o momento em que se fizeram abertas as veias da América Latina.
No Brasil, o capital inglês dominou a Coroa do Império das Penas de Papagaio. Os bancos ingleses chegaram ao Brasil na esteira da construção de obras de infra-estrutura nas áreas de transportes e serviços públicos. Tornara-se interessante financiar empreendimentos seguros e garantidos pelo Estado. Eram iniciativas voltadas às exportações, como ferrovias, armazéns, pontes e portos. A difusão das linhas de trens concentrou-se nas regiões sul e sudeste, onde estava a maior parte da cultura cafeeira. No Nordeste, seu desenvolvimento se deu na região canavieira. Empréstimos britânicos viabilizaram a construção das estradas de ferro. A chamada “política de defesa do café”, praticada em defesa dos cafeicultores e exportadores, endividava a República Velha, mas a casa Rothschild sempre renovou seus empréstimos, até a primeira moratória, em 1931. E os ingleses não admitiam concorrência. Delmiro Gouveia, empresário aventureiro, construiu a primeira usina hidrelétrica no Brasil e montou uma fábrica de linhas de cozer: a J&P Coats, fabricante das “linhas Corrente”que providenciou o seu assassinato. Quem se lembra de Delmiro Gouveia? Onde está o Amarildo?
O Chile foi submetido a uma exploração mais violenta: "Em 1890, 52% das rendas obtidas em exportação vinham do comércio do salitre, e quase 60% da exploração estava nas mãos de estrangeiros, especialmente ingleses. A figura do inglês Thomas North, dono da companhia distribuidora de água potável, de quinze oficinas, quatro ferrovias,do Banco de Tarapacá e Londres e da companhia distribuidora de alimentos, é emblemática e simbólica do predomínio inglês nos negócios chilenos (...) Em 1907, a participação do salitre chegaria a 44% das rendas chilenas com exportação, rendas essas advindas dos impostos aduaneiros, já que todo o negócio de exploração".
A Argentina foi feita pela Inglaterra grande “despensa” do mundo ocidental: carnes, frutas e lã. Os operários argentinos foram explorados de forma vil. A “Patagônia Rebelde”, a ação dos anarquistas explorados nos latifúndios e frigoríficos ingleses, em 1921, resultando na chacina de 1500 operários grevistas, ela existiu, embora hoje seja uma página esquecida.
A supremacia britânica foi enterrada definitivamente com a Segunda Guerra, de imediato substituída pela hegemonia dos Estados Unidos. Para a América Latina, ela passou a ter peso extraordinário, a partir da Revolução de Cuba, triunfante em 1959, provocando a queda de Baptista, ditador desde 1934, responsável pela transformação da Ilha em símbolo perfeito e acabado da petulância debochada dos norte-americanos. Experimentando então o auge da “Guerra Fria”, os Estados Unidos não engoliram a afronta, tentaram a violência das armas, na invasão abortada da Baia dos Porcos (a obra mais notável de John Kennedy), e impuseram a expulsão de Cuba na OEA, mais o embargo econômico, a ser obedecido por todas as Nações amigas. Para a expulsão de Cuba, os Estados Unidos contaram com os votos dos pequenos, países satélites. Abstiveram-se: Argentina, Brasil, Chile, Bolívia, Equador e México.
Passado meio século, nem o esquecimento daquilo que deve ser esquecido permite a compreensão exata do que aconteceu. Jânio Quadros, figura excêntrica, apropriada pela direita, visita Cuba, recebe Che Guevara e o condecora. Renunciou (porque bebia muito? Será mesmo?) e foi substituído por João Goulart, odiado pela direita brasileira, afilhado de Vargas e que claramente se opunha à expulsão de Cuba na OEA. O Brasil desde logo tornou-se o desafio maior a ser vencido pelo Departamento de Estado norte-americano. Não era a ameaça das reformas de base que preocupavam; isso afetava às elites anacrônicas, senhoras de terras e dos bancos. Era o não-alinhamento. O autoritarismo institucionalizado tornou-se a solução ideal e o Brasil alinhou-se, assumindo a teoria do “inimigo interno”. Golbery do Couto e Silva foi a tradução resumida e empobrecida de Henry Kissinger.
A Argentina só veio a incomodar quando o peronismo ameaçava plantar uma versão feminina mais radical, insatisfeito com o populismo de um sargentão. O Chile, quando surgiu Allende. Kissinger, com as rédeas em suas mãos, impôs o modelo de ditadura-democraticamente aceitável e necessária, quando isso foi possível, no Brasil. Com Pinochet experimentou coerentemente o modelo mais desejável, abrindo-se espaço até mesmo para o planejamento neoliberal dos Chicago’s boys.
O que fugiu e foge ao planejado? O Oriente (o Médio? O Próximo?). Uma guerra a ser vencida com dois tabefes vai se alongando perigosamente, e agora a própria Rússia já ganhou fôlego e joga as suas cartas-foguetes. Toda a atenção dos Estados Unidos volta-se para lá, suas tramas e em seguida as suas armas. A América Latina deixou de ter importância estratégica. Apenas a importância econômica vai aumentando, como reflexo da crise geral do capitalismo, o que começa na Europa, mas passa pelos tigres asiáticos e chega à Bolsa de Nova York. Agora, então, com o acomodamento amigável com Cuba, o que fica é o negócio, é a possibilidade de investir, de fazer lucros e de, na medida em que isso ainda seja possível, exportar um novo american way of life, que agora se resume de fato ao que mais importa: o consumismo total, de tudo e de todos.
A redemocratização na América Latina seguiu caminhos diferentes e experimenta momentos específicos. De uma maneira ou outra, consolida-se, embora conserve suas fraquezas e incoerências. O professor Bruno Lima Rocha propõe uma classificação coerente: países com governos de centro-esquerda (Argentina, Brasil, Uruguai e Chile) e países bolivaristas (Bolívia, Venezuela, Equador). Em comum, todos eles terão reagido ao neoliberalismo proposto de forma impositiva pelos Estados Unidos, depois da queda da Rússia; também em comum, terão obtido melhorias significativas de condições materiais de vida para o povo, mesmo não tendo superado a sua vocação, posta no mercado internacional, de fornecedores de produtos primários.
Em comum também todos esses países há uma participação insuficiente do povo, dos cidadãos. Na Argentina, é certo, o peronismo, o Justicialismo, ele tem a tradição de décadas e força para vencer eleições, associada ao privilégio concedido (ou obtido) pelas figuras femininas (Eva Peron, Isabelita Peron e Cristina). No estilo de Cristina, o contato se faz mais por ações concretas, do que por palavras; no Uruguai tornou-se marcante a figura ascética e exemplar de Jose Mujica; no Brasil, o discurso obreiro de Lula vai se transformando em fala monocromática. Houve Hugo Chaves, mais próximo da competência retórica de Fidel Castro. Como regra de comportamento político, porém, o povo importa enquanto colégio eleitoral e ser político vai sendo cada vez mais o exercício de uma vocação pessoal, quando não o de um negócio rentável. 

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