sexta-feira, 30 de outubro de 2015

TEXTO 14

A RELIGIOSIDADE DOS OPRIMIDOS

Um favor que se pede aos leitores: não se esqueçam de que esse texto não trata de temas religiosos, não defende e não ataca credos e ou crentes.  Trata de buscar explicações para a patologia que estamos vivendo no Brasil e que, numa simplificação perigosa, rotulamos com o nome de IGREJAS EVANGÉLICAS. Generalização indevida, pois que abarca religiões e fenômenos sociais muito diversos. Melhor fazer referência às seitas pentecostais, desde logo sendo preciso lembrar que precisam ser destacadas as que fazem 'neopentecostais'.
No começo, tivemos o pentecostalismo clássico, trazido para o Brasil, com a criação da Congregação Cristã e da Assembleia de Deus, radicalmente anticatólicas e sectárias. A partir de 1950, com a criação da Cruzada Nacional de Evangelização, começou a evangelização das massas, com o uso intensivo do rádio, concentrando seu proselitismo no poder de cura divina, marcando o começo da expansão do pentecostalismo no Brasil. Foram fundadas a Igreja do Evangelho Quadrangular, e em seguida: O Brasil para Cristo, Igreja Pentecostal Deus é Amor, Casa da Benção, Igreja Unida, além de outras menores.
Cândido Procópio Ferreira de Camargo, em 1973, publicou o livro “Católicos, Protestantes, Espíritas”, precedidos de “Kardexismo e Umbanda” e “Igreja e Desenvolvimento”,          fortalecendo a pesquisa no Brasil sobre a religiosidade como fenômeno social e político. No Brasil, até então “país essencialmente católico”, a Igreja Católica, que se permitia combater o kardexismo como heresia, começava a ser desafiada pelas seitas pentecostais: elas respondiam às necessidades dos imigrantes que vinham do Nordeste e das zonas rurais, violentados em seus valores culturais, na sua religiosidade mística e milenarista, buscando o milagre da sobrevivência nas grandes cidades.
Roma não se deu conta de que catolicismo da ex-colônia, longe dos centros urbanos, que só iriam superar a população rural em meados do século XX, sempre foi uma forma de religiosidade marcada por formas de intimismo que davam espaço para o culto dos santos, na espera do milagre, que tomaria forma de objeto no ex-voto, as procissões e as rezas, uma religiosidade rústica, aquela que Antônio Conselheiro construiu em Canudos. O pau-de-arara não permitiu que ela fosse trazida com os “baianos”.
Na cidade, a partir do Concílio Vaticano II, esse catolicismo devocionário e popular foi abandonado. O latim, a linguagem que, por ser divina deveria ser secreta, foi abandonada, substituída pela língua dos homens comuns; a solenidade divina, substituída pelo som humanamente intimista do violão. Deixavam-se de lado os responsórios e os cantos devotos, que afirmavam um Deus muito distante e ao mesmo tempo familiar e capaz de entender as dores humanas, substituídos pelas canções convocatórias para as lutas sociais.
Nos anos de 1970, as “comunidades de base” atraíram uma parcela considerável de um operariado que estava nascendo e que optava por elas, em detrimento do sindicato. Um levantamento de 1975 mostrou que 78% dos operários se declaravam católicos; e, mais impressionante do que isso, 30% frequentando assiduamente a sua igreja. A Igreja Católica que apoiou Lula, aproximando os estudantes dos operários, foi essa, a das Comunidades Eclesiais de Base, que Roma e os Quartéis trataram de sepultar. Mas uma Igreja que não chegou às favelas, à periferia, além dos bairros operários.
A terceira onda, a neopentecostal, teve início na segunda metade dos anos 70. Fundadas por brasileiros, a Igreja Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro, 1977), a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Brasília, 1992) e a Renascer em Cristo (São Paulo, 1986) são as maiores. Utilizam intensamente a mídia eletrônica e aplicam técnicas de administração empresarial, com uso de marketing, planejamento estatístico, análise de resultados etc. Algumas delas pregam a Teologia da Prosperidade, pela qual o cristão está destinado à prosperidade terrena, rejeitando os tradicionais usos e costumes pentecostais. O neopentecostalismo constitui a vertente pentecostal mais influente e a que mais cresce. Também são mais liberais em questões de costumes, sem prejuízo de sua pregação de moralismo rígido.
A doutrina de renovação do Pentecostalismo ultrapassou até mesmo as fronteiras do Protestantismo, surgindo movimentos de renovação pentecostal Católica Romana e Ortodoxa Oriental, como a Renovação Carismática Católica. 
O que é esse admirável mundo novo? Fluidez do campo religioso, baixo grau de institucionalização das igrejas, proliferação de seitas, fragmentação de crenças e práticas devocionais, seu rearranjo constante ao sabor das inclinações pessoais ou das vicissitudes da vida íntima de cada um: esses seriam os sinais que revelariam a face da modernidade. Modernidade ambígua, no entanto, porque, de modo contraditório, ela mesma seria responsável por promover — surpreendentemente, se pensado que tudo isso surgiu como expansão do protestantismo, religião histórica da tolerância e do valor da razão como base da crença — o enrijecimento das posições institucionais, a disputa no interior do campo religioso em cada uma das confissões e a intolerância para com as crenças das igrejas ou formas de religiosidade rivais, elevando ao mesmo tempo o irracionalismo aparentemente mais delirante à condição de prova da fé. Da mesma forma, à privatização e intimização das crenças e práticas constatadas no universo religioso corresponderia, contraditoriamente, mostrando uma outra face dessa modernidade, um envolvimento cada vez maior e mais complexo por parte das igrejas com o mundo social, sua busca de controle dos instrumentos de riqueza e prestígio, e a disputa aberta por posições de poder na vida pública, graças à participação direta na política.
O que realmente há de modernidade no neopentecostalismo? É a modernidade que o capitalismo globalizante impôs ao Brasil e aos brasileiros. Ele é a religião da modernidade, que não se confunde absolutamente com a religiosidade popular dos primeiros momentos do pentecostalismo no País, e que existe, tanto nas “seitas evangélicas”, como no “catolicismo carismático”. Não é expressão de religiosidade espontânea, mas sim um produto fabricado para as massas excluídas ou à beira da exclusão. Abre-se espaço para uma onda de misticismo histérico (provocado para ser assim), a multiplicação de milagres transmissíveis pela televisão. Os fiéis são chamados a uma participação ativa, consagram-se bispas e bispos com democracia extrema. Tudo se pode fazer, tudo se cobra e tudo se paga. Cria-se o fanatismo que leva ao messianismo, o milenarismo erigido em um Templo de Salomão.
A religião da modernidade não se esgota no neopentecostalismo, embora encontre nele o seu imenso contingente. Mas é uma religiosidade que se expressa também através do catolicismo carismático, de rituais que ensinam mantras e meditações, em arremedos de budismo. Enfim, a religião da modernidade se encontra em estantes e estantes de todas as livrarias, habitadas pela literatura de autoajuda.
As informações do IBGE mostram que o número de protestantes aumentou entre 2000-2010 em 61%. As igrejas evangélicas somam 42,3 milhões de fiéis: batistas (3,7 milhões), presbiterianos (1,5 milhão), adventistas do sétimo dia (1,5 milhão), luteranos (1 milhão) e metodistas (340 mil). Entre os pentecostais e neopentecostais, o grupo maior é o dos seguidores da Assembleia de Deus (8,4 milhões), Congregação Cristã do Brasil (2,5 milhões), Igreja Universal do Reino de Deus (2,1 milhões) e a Igreja do Evangelho Quadrangular (1,8 milhão).
O neopentecostalismo conforma um exército de excluídos, pobres e até miseráveis, que não guardam nenhum traço de religiosidade construída nos tempos de colônia, com os santos e procissões. E que fazem uma nova expressão de histeria coletiva, embalada pela repetição incansáveis de “aleluia, aleluia, aleluia” berrados a pleno pulmão, leituras extremamente malfeitas de textos bíblicos, milagres promovidos em linha-de-montagem, todos crendo que a sua condição é pecado, que só o dinheiro redime, e que se consegue, doando-se aquele que se tenha, mesmo que pouco, e mesmo o que não se tem, para glória de conforto dos pastores e bispos.
Já as igrejas neopentecostais organizam-se como empresas, arrecadam e lucram, isentas de encargos tributários, ostentando riquezas nos seus prédios imensos, monumentos ao gosto debochado que confunde os seus seguidores. Edir  Macedo Bezerra tornou-se em espaço curto de tempo o maior entre os bispos, senhor do maior rebanho de seguidores-contribuintes, construtor de templos monumentais, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, dono da Televisão Record  - um “tele-evangelista”. É apontado como o mais rico entre os ricos pastores que regem essa noite escura de ignorância.
Edir Macedo e Silas Malafaia são as duas grandes figuras públicas, orientando os políticos que formam a Frente Parlamentar Evangélica, eles mesmos não disputando mandatos: eles são os profetas, os que definem caminhos. Um dos líderes dessa “bancada” é o deputado João Campos (PSDB-GO), antigo escrivão de Polícia e presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil. Duas outras figuras de importância: Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro.
A Frente Parlamentar Evangélica representa a força mais radical, defensora das teses que podem levar o Brasil a um obscurantismo medieval: defensora do modelo de família convencional, estimula a rejeição violenta dos gays, opõe-se à regulamentação do direito ao aborto, pleiteia a redução da idade de responsabilidade penal. Defensora de toda e qualquer medida de “combate à violência”, a bancada é subsidiada fortemente pela outra, a “bancada da bala”, fazendo-se porta-voz das classes-médias e do seu ideal: “bandido bom é bandido morto”.
Através do Congresso, os pentecostais e neopentecostais chegam às classes médias, muito mais do que nos seus templos e programas televisivos, onde se prega apenas a singela destruição de imagens de santos. A partir do Congresso, o neopentecostalismo ensina o catecismo do fascismo, a intolerância política, promovendo a transformação de Lula no Exú-demônio. As manifestações de ódio, nas ruas e praças públicas, em restaurantes e até numa livraria, enfim são expressões de religiosidade patológica, que se inspiram nas palavras dos bispos, dos pastores e dos deputados.
A Frente Parlamentar Evangélica é claramente um partido político neopentecostalista: 22 de seus membros são pertencentes à Assembleia de Deus, enquanto 12 vem da Igreja Universal; presbiterianos são apenas 9. Camuflam-se em algumas legendas: 14 no PRB,11 no PR, 8 no PSC, 7 no PSDB, 7 no PMDB; no PT apenas 3.  Fatos relevantes: o PRB foi o partido de Jose Alencar, o vice-presidente do Lula; o PR é classificado pela Justiça Eleitoral entre os mais corruptos; o PSC nasceu para apoiar Collor de Mello, sendo hoje o grande bastião anticomunista no Brasil. Não seria necessário nem mesmo lembrar, mas é verdade: grande parte dos elementos dessa bancada está sendo processada, pela Justiça Eleitoral e no STF, por diferentes crimes: corrupção, peculato, e crimes eleitorais. Para obter o quinto ano de mandato, Jose Sarney comprou muitos desses “representantes do povo”, na forma de concessão de rádios e retransmissores de TV.
Quais os objetivos imediatos dos pastores da noite? A manutenção da isenção de tributos, a conservação da legislação da radiodifusão, a obtenção de espaços para a construção de templos e a transformação dos seus atos evangélicos em eventos culturais merecedores de verbas públicas. O que eles serão capazes de construir? Um Brasil fascista. O grande objetivo: a formação de imensas fortunas pessoais. Cidadãos acima de quaisquer suspeitas, e não sendo filhos de Lula, não são objeto de interesse e pesquisa da Polícia Federal e muito menos do Ministério Público; menos ainda de um Ministro da Justiça sonolento e omisso.
Contraditória e lastimável é a postura do PT. Lula teve por oito anos um neopentecostal como seu vice-presidente. Empenhou-se na soltura de Edir Macedo, quando ele foi preso; e negocia, sempre que isso pareça ser um bom-negócio, apoio político dos partidos neopentecostais. Dilma Rousseff aceita ministros dessa origem; comparece à inauguração do Templo de Salomão, prestigiando um dos maiores salafrários do País. Não os ameaça com reformas que atentem contra os seus interesses.
Enfim, o PT tem convivido com o inimigo, não só dele, mas do povo brasileiro. Negocia o apoio de gente fanaticamente anticomunista, dos defensores da moral e bons costumes da tradicional família, dos que reivindicam o assassinato de pobres, negros e gays, dos que querem os adolescentes atrás das grades. O PT está aceitando os que roubam o dinheiro pequeno e a inteligência apequenada dos pobres e miseráveis. O PT, para ganhar votos, está negociando com os fascistas que ridicularizam o Brasil.


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