quarta-feira, 18 de novembro de 2015

HECATOMBE lll
E chegamos aos homens, como os grandes agentes provocadores de hecatombes. Alguns acidentes, como o da contaminação com o Césio 137 em Goiânia, em 1987, que resultou em quatro mortes e muita contaminações. Lembrar esse acidente, provocado por descaso dos que deveriam armazenar esse material corretamente, vale especialmente para que se ponha em pauta o descaso do Estado, em proporções muito maiores, assustadoramente maiores. Com grande destaque, o plano nacional para produção de energia nuclear, com a construção de três usinas em Angra dos Reis. As afirmações em contrário, por parte dos responsáveis não podem despreocupar: o Governo insiste na produção de um tipo de energia que está sendo abandonado em todo o mundo. As usinas de Angra dos Reis inspiram uma crônica da hecatombe anunciada.
A irresponsabilidade do Estado é histórica. Já existindo muitos anos antes, em 1975 foi criada a NUCLEBRAS MONAZITA (NUCLEMON), ocupando instalações no coração de um bairro residencial (Brooklin Paulista), na rua Princesa Isabel, em São Paulo. Processava areia monazítica, produzindo a torta II, estágio para chegar-se ao mesotório, altamente radioativo. Os operários não tinham noção dos riscos e trabalhavam sem qualquer proteção. Faleciam em porcentagem assustadora, vitimados por câncer. Em 1987, o acidente de Goiânia despertou a atenção do sindicato operário. Em 1991 a Câmara Municipal, através de uma CPI, constatou todas as irregularidades e descuidos dos responsáveis pela Nuclemon. Em 1992 as suas atividades foram encerradas. A fábrica demolida, o terreno foi incorporado por uma Construtora, levantando-se na área contaminada um grande conjunto de apartamentos, sem que qualquer autoridade pública se preocupasse. O lixo foi transferido e armazenado precariamente num terreno na avenida Interlagos. Nenhum órgão do Governo tem qualquer preocupação com isso. A própria Nuclemon pertencia ao Estado.
Descaso criminoso do Poder Público (o Estado, em seus três níveis) aconteceu em Cubatão, transformado em 1982 no Vale da Morte. A degeneração foi violenta e explodiu com o incêndio da Vila Socó, em 1984. A tragédia ganhou contornos nacionais e mundiais, pois a explosão dos dutos da Petrobrás, sobre os quais se erguia uma favela que foi pulverizada, pôs a nu os problemas advindos de políticas energéticas não planejadas e eivada de erros primários. Uma tragédia incontável, pois nem a Prefeitura, nem o Governo Estadual nem a Petrobrás conseguiram precisar o número de mortos Na sequência, aconteceu o desastre da Vila Parisi: encravada num polígono entre várias indústrias, nos fundos da Aciaria da Companhia Siderúrgica Paulista, a favela da Vila Parisi é um exemplo mundial de descaso e humilhação com o ser humano. O clamor mundial começou com constatação das doenças intimamente ligadas à miséria, a pobreza, a falta de saneamento básico, a poluição. Ocorreram as primeiras mortes neonatais por anencefalia, casos até hoje mal explicados.
Sem a expressão infernal de Cubatão, as cidades do ABC paulista, a partir de 1955, com a industrialização extremamente rápida, sem que houvesse qualquer forma de planejamento urbanístico e preocupação com as condições ambientais que se deterioravam, todas elas passaram a representar desrespeito aos seus habitantes e ao meio-ambiente.
As Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo se instalaram em São Caetano no ano de 1912, após o arrendamento da antiga fábrica Pamplona. Ao longo das décadas seguintes, o complexo cresceu e estendeu sua atuação para os mais diversos produtos, principalmente químicos, sendo fechada em 1986 pela Cetesb por diversos problemas ambientais, principalmente pela não-destinação dos resíduos finais da fabricação do veneno BHC, produto tóxico e cancerígeno. Constatou-se que o BHC era processado a céu aberto, fato denunciado pelo odor que exalava, tendo causado mais de 100 mortes de moradores mais próximos, provocadas pelo câncer.
O espaço que era ocupado pela Matarazzo é considerado uma das 10 áreas de contaminação crítica do Estado, sob vigilância da Cetesb desde a década de 1960. Na década de 1990, investigações revelaram elevados níveis de concentração de mercúrio.
Brasília cria e regulamenta órgãos fiscalizadores. Além dos empregos que criam, esses órgãos servem para que, a quem, como?

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