quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Por Maria Fernanda Arruda, colunista do Cafezinho
Se a Argentina nos leva ao Brasil, Dilma leva à Cristina. Com evidentes vantagens para Cristina, começando com a política econômica de cada uma. Enquanto no Brasil o neoliberalismo do período FHC levou à hegemonia do sistema financeiro internacional, do que nem Lula e nem Dilma se livraram, sendo ele quem determina os procedimentos do Banco Central, manipulando em seu benefício as taxas de juros e a política cambial, na Argentina ele não tem expressão política.
A era Cristina Kirchner obteve resultados muito expressivos, aplicando uma política econômica despreocupada dos dogmas defendidos pelo FMI e orientada para o bem-estar social; nisso rompeu radicalmente com o neoliberalismo dos tempos da ditadura e de Menem. Não privilegiou o sistema financeiro. E pôs em execução um programa para reestatização de empresas privatizadas. No Brasil nem mesmo se cogitou sobre um programa de reestatização, mesmo praticado o crime que se praticou contra a Vale.
Pior do que isso: a Vale, uma vez privatizada, passou ao controle acionário de um banco, o Bradesco, de onde sairía o Ministro da Fazenda de Dilma, Joaquim Levy, com que se iniciou de fato a recessão e a crise econômica, propondo-se um novo "pacto social", privilegiando-se o equilíbrio das contas públicas. Os programas sociais foram mantidos, sem que fossem possíveis ampliação e aperfeiçoamento.
Ao iniciar o segundo governo Dilma, foram criadas todas as condições para que se inciasse um período de recessão e desemprego. Já a política econômica de Cristina assumiu a necessidade de aumento dos gastos públicos, aqueles voltados para um programa social agressivo. Com isso, reduziu-se a pobreza a 5,7% a população.
Cristina terminou o governo registrando a criação de 3,5 milhões de novos empregos e, em 2013 o salário mínimo foi aumentado em 25%, tornando-se o maior na América Latina.
Há razões para essa discrepância. Numa relação dos dez maiores bancos da América Latina, a presença do Brasil é de maioria absoluta, enquanto nenhum deles é argentino. Tradicionalmente, a aristocracia argentina, dona das terras e senhora das exportações, não diversifica seus investimentos, mantendo-se como uma notável rentista, enquanto a maior parte da indústria é internacional, tendo por objetivo natural a exportação de lucros.
Em ambos os casos, a grande solução fica à margem oposta do rio da Prata: o sistema financeiro argentino é em grande parte “internacionalizado”, através das portas abertas dos bancos uruguaios, onde não há limitações quanto à movimentação de capitais e nem controle de operações em moeda estrangeira.
Atualmente, os descendentes dos senhores das terras controlam ainda 32% do território nacional. Entre 1836 e 1928 experimentou-se um processo violento de concentração de propriedades : as dez famílias da burguesia senhora das terras aumentaram em muito as suas propriedades, quatro delas permanecendo no topo da linhagem de latifundiários, compondo-se como a espinha dorsal da classe alta . Sem prejuízo, outros grupos familiares vieram a somar-se ao grupo dos privilegiados.
A aristocracia argentina soube incorporar novos ricos. Conserva o patrimônio herdado, aumenta-o, mantém-se como os senhores das terras, conservadas como patrimônio familiar. Os seus membros se encontram na Sociedade Rural Argentina, no Jockey Club e outros clubes fechados, amando o rugby e o polo.
Em Buenos Aires, ocupam seus bairros diferenciados, como Palermo, onde levantaram palácios de estilo afrancesado, pretendendo em tudo e sempre afirmar-se como corpo social privilegiado, com sua linguagem, seus códigos de comportamento, vindos desde os tempos de estudantes nos mesmos colégios, tudo facilitando alianças e negócios.
A aristocracia oligárquica argentina não guarda quaisquer semelhanças com o coronelismo e o mandonismo que nasceram aqui no Brasil, na casa grande. Ela não teve escravos, teve serviçais. Ela conservou e mantém até hoje uma visão elitista de um mundo que enxerga com desprezo o outro, o nosso, da casa grande & senzala.
Em resumo: Cristina não tinha uma burguesia moderna desafiando-a; Dilma, sim; a ela opunha-se a elite nacional associada à modernização orquestrada pelo capital internacional. Em São Paulo, a avenida Paulista de começos do século XX foi implodida, para que pudesse ser ocupada pela FIESP e pelos bancos internacionalizados.
Na Argentina houve uma ditadura militar extremamente violenta, contestada desde sempre por segmentos expressivos do povo; a guerra das Malvinas apressou um fim que já estava previsto, com a vitória de um povo que não perdoou, julgando e punindo com a justa severidade os torturadores e assassinos.
No Brasil, implantou-se um Estado Autoritário, violento e que também torturou e matou, ainda que em proporções significativamente menores. Enquanto setores militares manchavam as mãos com o sangue das vítimas, os civis saquearam o País, prostituindo as instituições que foram conservadas em aparência, mas submissas a um poder discricionário.
Esse Estado Autoritário não foi derrubado, mas transformado em “democracia consentida”, numa transição em que, mudados os títulos, os homens e os procedimentos se conservaram. Vale comentar tudo isso, para que se entenda o neoliberalismo, que foi compartilhado por Argentina e Brasil. Durante a “Era Kirchner”, os crimes da ditadura foram apurados e punidos com rigor, um ponto em que os dois países colocaram-se em extremoso opostos. A “Comissão da Verdade”, de Dilma Rousseff, acabou por ser uma das grandes frustrações desse governo.
Cristina, além disso, assumiu posições claras quanto ao casamento igualitário e o direito ao aborto, em oposição ao silêncio morno de Brasília. Destacou-se ainda pela sua firmeza no trato da questão da imprensa, posta a serviço do capital e seus interesses, e traindo a alegada vocação de informação pública. A Lei de Proteção da Liberdade de Expressão prevê a punição pela calúnia ou difamação.
Em 2009 a Lei da Mídia, que obteve apoio formal da ONU, restringiu o uso abusivo da imprensa por grupos econômicos. Dilma Rousseff recebeu pronto de Lula o projeto de regulamentação, mas não teve forças para levá-lo adiante. Por cautela excessiva, uma vez eleita, Dilma acalmou ânimos, assegurando que jamais cogitaria em regulamentação do "conteúdo".
Pode-se apenas lembrar que o exercício prolongado do poder, o que aconteceu em ambos os casos, provoca desgastes aos gontes, que se acomodam no poder.
A direita brasileira cometeu simplificação aberrante, pretendendo colocar Vargas e Perón lado a lado, em 1950, com discursos de Carlos Lacerda e artigos de David Nasser. Vargas antecedeu a Perón em 15 anos, criando um “trabalhismo” que a partir de 1950 foi se fazendo um nacionalismo industrializante.
O Brasil não era rico e nem mesmo um país urbanizado, metade de sua população vivendo no mundo rural. O peronismo (com Evita, ou com Cristina) é um fenômeno político. A experiência brasileira, com o trabalhismo (com Vargas ou com Goulart), não nos permite pretender saber sobre os nossos vizinhos e dizer “verdades” sobre a política argentina.
Tenhamos então a sabedoria de admitir: as veias a América Latina ainda estão abertas. O Continente, ao sul do Equador, ainda recebe o tratamento que a Metrópole reserva às Colônias.
Para o Brasil, a vitória de Macri veio para toldar os horizontes, anunciando a tempestade. De acordo com o prometido em campanha e que começa a ser repetido, o novo governo argentino revoluciona a política externa de seu Pais: retoma relações íntimas com os Estados Unidos e a Europa, desconfiando das aproximações mais recentes com a China e Rússia; empenha-se em abandonar o “eixo bolivariano” e advoga a exclusão da Venezuela no Mercosul.
O Departamento de Estado dos EUA começaram por incorporar a peça menor, o Paraguai. Mas pretende é chegar à Venezuela e o seu petróleo. Com Macri, obtém a cooptação da Argentina. Com nu o golpe de Estado, entregando-se o comando a Jose Serra e FHC, dobram o Brasil.
Cristina e Dilma podem e devem ser avaliadas em seus erros. E muito elogiadas, com larga vantagem, nos acertos.

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