quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

  • CARNAVAL
    Quarta-feira de cinzas: em algum lugar, velhas senhoras e suas mantilhas negras
    conduzem-se até à Igreja, para a missa e imposição das cinzas à testa, pedido de
    perdão pelos pecados da carne que não coometeram, arrependimento pelo malfeito
    não feito? Início da Quaresma, tempo de provações, isso sim, todos nós sabemos e
    todos nós provaremos. Calendário e ritual que não guardam qualquer relação com o
    nosso Carnaval que, antes de ser um festival do sexo, é festa do povo, que pode
    subverter a ordem social que o sufoca.
    Chico Buarque de Holanda é o pintor exemplar desse cenário: um povo que anda às
    cegas, ignorantes das transações nebulosas dos detentores do poder, a eles é dado um
    momento de alegria fugaz. "Uma ofegante epidemia, que se chamava carnaval. Palmas
    para a ala dos barões famintos, o bloco dos tsnapoleões retintos e os pigmeus do
    bulevar." A evolução da liberdade? a ilusão da liberdade? É a continuidade de uma
    tradição que em última instância é a revolta pagã, contra a ordem determinada pelos
    senhores do poder. Nas festas medievais, a festas dos loucos, elegia-se um "bispo", o
    "Papa dos Loucos". Os clérigos dançam e pulam durante o ofício da missa e cantam
    canções lascivas. Adotam trejeitos indecentes e recitam versos torpes.
    Esse festa, catarze de um povo explorado o ano inteiro, comemora-se nas ruas, com as
    fantasias improvisadas, com a música dos pandeiros e tamborins. A sua beleza é
    coletiva, não comporta destaques e alegorias. A sua realização xima tomou a forma
    das escolas de samba, que no Rio de Janeiro se fizeram tradicionalmente nacionais,
    com as suas cores, seus compositores, seus sambas de enredo, suas comissões de
    frente, seus passistas exibicionistas de maravilhas. Graças a elas a Cidade tornou-se o
    símbolo do Carnaval, sepultando os "corsos" da avenida Paulista, que enfeitavam a
    sobriedade bandeirante entre confetes e serpentinas. A consagração definitiva foi
    projetada por Oscar Niemeyer e construída por Brizola e Darcy Ribeiro: o Sambódromo.
    Mas o carnaval foi e está cada vez mais sendo apropriado pelos comerciantes de uma
    alegria fugaz, que se alimentam do turismo de massas, hoje em boa parte flutuante a
    bordo de imensos navios que chegam aos portos e descarregam milhares de "foliões de
    aluguél", ávidos do pitoresco e da aventura fácil, sugerida pela TV e que irão alimentar
    hotéis, restaurantes, motéis, fabricantes e distrubuidores de bebidas, e principalmente
    os cofres das Prefeituras. Em passado recente da nossa História, contrapunham-se ao
    povo mascarado das ruas os bailes dos clubes de elite, o baile do Municipal do Rio de
    Janeiro o mais famoso deles, além do Copacabana Palace, as fantasias de altíssimo
    luxo e péssimo gosto, um mundo que foi substituído pelas formas massificantes de
    produção de euforia. O carnaval promovido pela televisão e pelo rádio cria sucessos
    musicais de vida curta e estrelas que vão se perpetuando nos seus corpos malhados,
    nos seus trejeitos e exibicionismo primário.
    Mas também o "carnaval turismo", aquele que é feito para quem pode pagar e paga.
    Não se trata da elite que sempre fez os seus bailes carnavalescos, por muito tempo
    tendo sido o Rei de todos eles o Baile do Municipal do Rio de Janeiro. É o turismo de
    massa, o que agora atraca nos portos de Salvador e do Rio de Janeiro. Esse carnaval
    para turistas sufoca o carnaval do povo, rouba seus espaços, é promovido pela
    imprensa, jornais e televisões. E cada vez mais é explorado pelos políticos: da
    Presidência da República aos governadores e prefeitos. Vargas e Kubitschek
    apresentavam em traje a rigor nas frisas do Municipal, é bem verdade; mas Itamar
    Franco, envolvido pela modernidade e vestido esportivamente, compartilhou o camarote
  • audosismo simples: "o samba bem merecia/ter ministério algum dia/E então seria
    ministro Paulo César Batista Faria". É a espontaneidade popular que vai sendo
    enterrada em solo baiano, ao som batido e rebatido dos "achés", que passa e repassa
    pelas novas avenidas, ladeadas por camarotes habitados pelos enfastiados do
    populacho, que se transformam em auto-passarelas, cercados de conforto, bebidas e
    comidas, dispondo até mesmo de salas para prática do sexo.
    Em Salvador, o turista é transformado em "pipoca", o que pula e salta, correndo atrás
    dos trioelétricos, devidamente enfardado no abadá que comprou e pagou bem pago, e
    protegido de intruzos por cordas, sob vigilância dos "cordeiros". Em 2016, o prefeito
    ACM vendeu o carnaval oficial a uma marca de cerveja, proibindo o consumo de
    qualquer outra, numa expressão perfeita de seu elitismo que o DEM injeta nos seus
    líderes. Vale a pena o comentário mais alongado sobre o que acontece na cidade do
    Salvador, para que se contraponha ao que começa a ser feito em São Paulo.
    O prefeito Haddad abriu as ruas de São Paulo para o povo, que fizesse o seu carnaval,
    proibindo a imposição de abadás e eliminando as cordas segregadoras. Não se
    esqueçam as escolas de samba, os desfiles, os cacoetes copiados do Rio de Janeiro.
    Mas o que seria monopólio passa a ter concorrência de alguns milhões de paulistanos
    que puderam promover a sua "catarze" com liberdade de ir e vir e tomar a cerveja de
    sua preferência.
    Não se trata apenas do Carnaval, o que seria de bom tamanho. Mas de uma política
    de respeito à cultura que o povo sabe fazer, o que, vale a pena lembrar, no plano da
    União, vem sendo feito com comptência pelo Ministro da Cultura, uma voz que clama no
    deserto de Brasília. E então: se adentramos pela Quaresma, tempo de meditações, que
    se pensem sobre dois temas: o da sordidez da política brasileira, que convive e é
    conivente com a Máfia do Rio de Janeiro; e o da necessidade de respeito e apoio à
    cultura popular.
    Ainda que "a bom entendedor meia-palavra baste", que fique claro o seguinte: as
    Escolas de Samba do Rio de Janeiro são instituições. Elas precisam ser resgatadas,
    isso é, tiradas das mãos da Máfia do Bicho e da Globo, restituídas aos seus legítimos
    donos, os sambistas. Que os subsídios dos bicheiros sejam substituídos por patrocínio
    de empresas, promovendo-se uma lei Rouanet do samba. Que o Ministério da Cultura
    se disponha a assessorá-los no que impeça a reendição de "sambas do criolo doido" e
    no trabalho de enredos; que artistas plásticos vindos das próprias comunidades possam
    tomar o lugar de "carnavalescos inventivos". Enfim, que se mantenha a "Passarela do
    Samba", restituindo-se ao "Sambódromo" todas as atribuições que lhe foram ppresitas
    por Darcy Ribiro. e promovendo o espetáculo das Escolas de Samba , imensos shows
    de qualidade, depois que devolvidas aos sambistas de verdadeda Máfia do Bicho com a jovem que se mostrou nos seus documentos mais íntimos,
    para alegria de fotógrafos de uma imprensa cega.
    Ironia histórica, a "Passarela do Samba", na Marquês de Sapucaí, foi totalmente
    desvirtuada: seria um conjunto que abrigaria escolas para as crianças, oficinas e apoio
    às escolas de samba, dando-se vida e calor humano a ele pelo ano inteiro. Hoje, é um
    conjunto de camarotes especiais, abrigando a fauna cultivada pela TV e "celebridades
    internacionais", convidados especiais anotados por lobistas, com aval dos capos da
    Máfia, discretamente presentes, bebendo, comendo, comendo-se, exibindo-se,
    ocasionalmente lançando olhos nos apanhados de telões de TV, que mostram a Escola
    desfilante. O "sambódromo" reune anualmente a fina-flor dos inúteis, dos homens e
    mulheres de negócios tão lucrativos quanto escusos, os que vendem os canais de
    acesso ao poder e às negociatas, tornando-se o reino da Máfia dos Bicheiros.
    De acordo com o que conta a própria LIESA - Liga Independente das Escolas de
    Samba, ela e a Prefeitura da Cidade (Riotur) são as responsáveis por tudo o que se
    refira ao grande espetáculo. foram seus presidentes Castor de Andrade e o Capitão
    Guimarães, mas hoje, modernizada e profissionalizada, ela é gerida por Jorge Luiz
    Castanheira Alexandre, sobre quem não existem condenações judiciais e nem suspeitas
    e nem críticas. As escolas, entretanto, voltaram nos anos mais recentes às mãos da
    máfia controladora: Rogério Andrade, o Anísio da Beija Flor, Luizinho Drummond, Hélio
    de Oliveira, Wilson Vieira Alves, o Moisés, condenado a 23 anos de prisão, mas
    libertado pelo STF, criatura do capitão Guimarães. Para esses homens, o Carnaval é
    um ótimo negócio, abre as portas para outros negócios maiores, muitissimo maiores.
    A LIESA governa o carnaval oficial do Rio de Janeiro, em parceria com Eduardo Paes,
    camuflado pela Riotur, o prefeito que o PMDB trouxe do PSDB para os cariocas. Os
    senhores da Liga ganham prestígio e fama com as suas escolas de samba. Impõem
    sua regras como capos de uma famiglia sórdida, protegida pela Justiça do Supremo
    Tribunal Federal. Coragem teve a juiz Denise Frossard. E ganham dinheiro. São os
    donos informais do Rio de Janeiro. O que ganha Eduardo Paes? Aceito pelos "capos", o
    Prefeito do Rio de Janeiro conta com a proteção deles e faz os seus negócios, não
    políticos.
    Nas versões depuradas pelos filtros do marketing político & comercial, os carnavais
    oficiais de outros pontos do País são discretamente divulgados: Recife, Olinda, os
    "cabeções" ... Depois do Rio de Janeiro, só mesmo a Bahia, onde o carnaval, a festa do
    povo, ainda não sufocada, acontece, especialmente no Pelourinho, com os que moram
    lá ou o frequentam, gente negra e pobre, que toma a cerveja que prefere e ouve samba:
    Paulinho da Viola é ouvido com respeito. Mas, a partir da década de 1980, Salvador foi
    sendo assumida pelo turismo de massas. Em dezembro, estimava-se que 88 navios
    passariam pelo porto de Salvador, durante a alta-estação de 2016, carregando 220 mil
    turistas. O carnaval baiano vai sendo cada vez mais metamorfoseado, amoldando-se
    aos padrões que a TV impõe e que esse enxame de turistas vai em busca. E essa
    indústria é que sufoca o que seria a festa do povo: o carnaval vai deixando de ser "festa
    de loucos", para ser a "festa dos alienados".
    No Pelourinho, Paulinho da Viola cantou, desde composições mais antigas, como
    "Recado", "Aegumento", "Mangueira" e "Sei lá", até mais recente, como "Talismã". Entre
    ele (eleito por Batatinha como Ministrro do Samba) e Claúdia Leite (rainha de bateria da
    Mocidade Independente de Padre Miguel, por escolha pessoal de seu patrono, o
    contraventor herdeiro do clã dos Andrade) um abismo que foi cavado não po

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